Dia Mundial da Rádio

Dia 13 de Fevereiro celebra-se o Dia Mundial da Rádio. A Rádio sempre fez parte da minha vida. Nas minhas memórias mais antigas faz parte o som do rádio que tocava na cabeceira da cama do meu pai até ele adormecer, aliás, nessa altura, ele próprio pedia que quando morresse não lhe levassem flores mas que o deixassem levar um rádio a tocar. Infelizmente não pudemos cumprir com o seu desejo mas sem dúvida que essa foi a sua grande companhia até ele chegar quase ao final da sua vida.
Outra memória que ainda me atravessa o pensamento passa pelo “Pão com Manteiga”, o programa do Carlos Cruz que nas manhãs de fim de semana, me ensinou com muito bom humor o que era a Bossa Nova entre tantos géneros musicais, completamente novos para mim que era uma miúda. Tive a sorte de assistir ao nascer de uma nova forma de fazer humor, inteligente e atrevida, que nos prendia das 10h00 às 13h00 enquanto nos ensinava tanto sobre música e não só.   
Longe estava eu de imaginar que com 19 anos estaria a trabalhar como jornalista na Rádio Margem nas Caldas da Rainha. Como foi excitante esse ano, até que todas as rádios piratas tiveram de fechar para só serem autorizadas a abrir as que estavam legalizadas e autorizadas a emitir.
Era impressionante como eramos todos tão jovens e como nos divertíamos tanto sendo a nossa formação feita no terreno, aprendendo uns com os outros. Aprendi a redigir com quem já lá trabalhava, escolher e colocar musica também. A nossa prova de fogo era claro quando estávamos no ar, sem qualquer suporte e houve alturas em que foi mesmo muito difícil controlar o riso. Lembro-me daquela vez em que quando olhei para pedir ao técnico para passar um spot publicitário ele tinha fixado ao vidro um poster gigante do Ney Mato Grosso vestido com pouco mais de duas plumas. Tinha acabado de ler uma notícia sobre o aumento do alcoolismo infantil e até a mim me caiu mal a valente gargalha que dei antes de pensar em fechar o microfone. Também inesquecível aquela vez em que uma colega para fugir ao namorado entrou no estúdio e se escondeu debaixo da minha secretária enquanto eu o via a deambular pela redação atónito, a pensar com certeza como é que ela tinha desaparecido, ou ainda daquela vez em que entrevistei o João Soares. Percebemos no final que a cassete não tinha gravado nada, ele não se importou e repetimos toda a entrevista.
Memoráveis eram os diretos da Green Hill ao fim de semana (trabalho a quanto obrigas), os convites para jantares, exposições e a alegria que era estar ocupado durante 8 horas por dia com um grupo de amigos bem-humorados. Tinha de ser mesmo assim porque parece que a Rádio, que estava localizada no centro das Caldas, tinha ocupado uma casa que tinha sido em tempo um local para diversão dos aldeões. Especialmente à segunda-feira, o dia no mercado semanal, as miúdas que trabalhavam na rádio evitavam ir à porta, para não terem de se sujeitar a alguma confusão menos agradável.
Calhou-me a mim dar duas das notícias mais tristes a que até hoje me deixam comovida, a morte repentina do Carlos Paião e o incendio na baixa de Lisboa.
Quando me mudei para Lisboa perdi totalmente o contacto com todos os colegas daquele tempo. É sem dúvida uma época que deixou muitas saudades e que muitos anos mais tarde acabaria por influenciar a minha escolha por manter um blog. Ao fim de tanto tempo consegui reviver um pouco do que vivi aos 19 anos.
Não interessa o que pensam, o que eu tenho como garantido é que a rádio nunca irá morrer, pelo menos enquanto se acreditar que no seu glamour.  
    

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